Waldir Calmon

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Inesquecível Como Uma Canção

Em onze de abril de 1982, meu pai nos deixou e, para homenageá-lo nesses 29 anos de saudade, quero falar de um Waldir Calmon que poucos privilegiados conheceram. Vou, enfim, me permitir escrever sobre meu pai de forma pessoal depois de um site inteiro e de uma monografia dedicados a ele em que fiz esforço tremendo para focar apenas na carreira do pianista.

Ele gostava da vida noturna, das conversas descontraídas após o trabalho e do astral de uma Copacabana que, entre os anos 50 e 80, nunca adormecia e por onde você circulava em segurança. Mas às seis e meia da manhã já estava de pé para nos deixar na escola. Para dizer a verdade, nunca entendi direito como ele conseguia descansar, pois praticamente não dormia - tirava apenas alguns cochilos em uma casa barulhenta onde morava com os dois filhos, três cachorros (que latiam por qualquer motivo), três passarinhos (que faziam um coro desordenado com a máquina de lavar roupa), empregada, faxineira e minha mãe (que insistia, apesar de seus inúmeros apelos, em passar a Feiticeira de cinco em cinco minutos pelo apartamento).  Para quem não sabe, Feiticeira é uma espécie de vassoura, própria para carpetes, que faz um barulhinho bem irritante. E a casa era toda acarpetada. Difícil vida de um notívago...

Amável e atencioso, meu pai sempre fez questão do convívio familiar e da vida social. Estávamos com nosso avô paterno quase todos os dias e, nos fins-de-semana, mesmo com compromissos de trabalho, visitávamos nossos primos e tios. Talvez por sua infância tão sofrida, a perda da mãe ainda jovem e, mais tarde, de seu querido irmão Willman, ele fazia tanta questão de estar entre os seus. Eram muitas comemorações: além dos aniversários e casamentos de praxe, ainda inventávamos batizado de passarinho, aniversário de cachorro... Tudo era pretexto para uma boa festinha regada a muitos e deliciosos quitutes.

Minha infância e adolescência foram marcadas pelas festas. E que festas... Minha mãe e meu pai gostavam de mesa farta e ela cozinhava como ninguém. Também fazia enfeites para festas com maestria. Aqui, preciso abrir um parêntese e dizer que o conceito de decoração de festas de aniversário e casamento, há cerca de quarenta anos, era bem diferente do que vemos hoje em dia: eram usados muitos, mas muitos, enfeites (de cartolina, papel crepom, isopor e materiais desse tipo) que podiam ser comprados em papelarias, mas não eram bonitos. Minha mãe fazia questão de confeccioná-los, um a um, com riqueza de detalhes. Ela possuía admirável habilidade manual, mas não conseguia fazer os acabamentos quando se tratava de pintura. Meu pai então chegava em casa de madrugada e desenhava as carinhas dos muitos Tios Patinhas, Donalds, Mickeys... E o fazia com muita satisfação.

Quando eu tinha uns oito anos, ele fez um caderno com seus desenhos para mim. Durante algumas noites, eu deixava o caderno A3, especialmente comprado para esse fim, na mesa da sala e, quando ele chegava de madrugada, escolhia um personagem de histórias em quadrinhos, entre os inúmeros gibis que havia lá em casa, para desenhar. Guardo até hoje esse caderno com muito carinho.

Os gibis eram um capítulo à parte. Meu pai amava essas revistinhas infantis e praticamente fomos alfabetizados lendo Disney e Maurício de Souza. Eram algumas dezenas de gibis, talvez mais. Tantos que, uma vez, decidi vender uma parte, enchi duas sacolas grandes de supermercado (daquelas antigas, de papel), e levei para a escola. Durante a aula de português, vendi tudo! Todos pararam para ler as revistinhas - inclusive a professora, que acabou comprando algumas.

A música, é claro, estava sempre presente em nossa casa e ele, com frequência, tocava o piano para exercitar os dedos que ficavam "preguiçosos" por causa da suavidade do teclado de seu Hammond B3. E com direito a pedidos: minha mãe gostava de Noturno em Eb, de Chopin, mas eu ia no popular e pedia Manhattan (Rodgers & Hart) que ele tocava divinamente. Assim, fui conhecendo as maravilhas da música erudita e popular, nacional e internacional. No caminho inverso, também o apresentei aos meus ídolos de adolescência e ele acabou se tornando fã de Earth, Wind & Fire e Donna Summer - que, segundo ele, sempre apresentava novidades interessantes. A qualidade musical e o suingue do EW&F o surpreenderam e me ajudaram a conseguir, na hora, o dinheiro dos ingressos para um show inesquecível que o grupo fez no Maracanãzinho, em 1980.

Meu pai vivia sempre de bom-humor e gostava de ouvir e contar anedotas. Apesar disso, irritava-se facilmente e dizia ter "o estopim curto". E era verdade. Nada, porém, chamuscava a pessoa carinhosa e dedicada que era. Não era raro minha mãe e eu chegarmos em casa e sermos presenteadas com flores em algumas datas especiais. Sempre abria a porta do elevador, carregava sacolas ou estendia a mão para ajudar os mais velhos e as senhoras. As vizinhas do prédio em que morávamos comentavam a sua gentileza.

Dois meses antes de sua morte, perdemos uma cachorrinha. Ele sofreu muito e disse-me que gostaria de morrer antes de qualquer um de nós, pois não suportaria a dor de perder um ente querido.

Dizem que ninguém é insubstituível. Bobagem. Há pessoas que são insubstituíveis sim. Nós só aprendemos a conviver com a falta que ela nos fazem.

 

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Acima, três dos desenhos que meu pai fez para mim. Na foto, no sentido horário: meu pai; eu; minha mãe, Marta, e minha avó materna, Leonor (1980). Meu irmão, Marcus, está atrás da câmera e é o responsável pelo clic!

Site oficial: www.waldircalmon.com

domingo 27 março 2011 13:10


Cante, Cauby, Cante!

 

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Nesse dia 10 de fevereiro, Cauby Peixoto completa 80 anos de vida e eu não poderia deixar de fazer-lhe essa pequena homenagem. Cauby já foi considerado, nos anos 50, pelas revistas norte-americanas Time e Life, como o "Elvis Presley brasileiro". Mas, aqui no Brasil, sempre foi conhecido como o "Sinatra brasileiro".

Carioca de Niterói, Rio de Janeiro, Cauby nasceu em uma família muito musical: seu pai, sua mãe, seu tio e seus irmãos Moacyr e Araquém eram instrumentistas; seu primo Ciro Monteiro era cantor e compositor, e suas irmãs Iracema e Andiara cantavam. Cauby fez carreira também nos EUA e chegou a ser o cantor mais popular do Brasil, fazendo participações no cinema nacional. Nos anos 50, ele e seus irmãos compraram a boate Drink, no Leme - ponto de elegantes casas noturnas no Rio de Janeiro, como Arpége, Sacha's e Fred's, que eram freqüentadas por políticos, artistas internacionais e pessoas da alta sociedade.   

Para o público, Cauby Peixoto era aquele cantor de voz grave e aveludada, mas, no meio musical, também era conhecido por sua gentileza. Chamava todos os seus colegas pelo carinhoso apelido de "professor" e nunca soube que ele tivesse um desafeto sequer. Meu pai era um homem extremamente exigente quanto à disciplina e ao profissionalismo e ficou encantado com Cauby quando trabalharam juntos, em 1978, em Recife. Era só elogios.

Mas o que mais me chama a atenção em Cauby Peixoto é a juventude de sua voz - mesmo aos 80 anos. A voz muda com o passar dos anos, acompanhando o processo de envelhecimento do corpo humano: na mulher, ela se torna mais "encorpada", grave (principalmente após a menopausa), dificultando a passagem da voz de peito para a de cabeça. Isso pode, em muitos casos, limitar a extensão vocal. No homem, o timbre vai se tornando mais agudo, "fino", e a extensão também fica comprometida. Algumas pessoas, com os anos, desenvolvem uma voz trêmula, débil, que acaba por revelar a sua fragilidade física, pois a emissão vocal envolve vários músculos e um certo vigor, necessitando, como qualquer outra função do corpo humano, de exercícios específicos, regulares e uso freqüente para estar sempre saudável. Por essa razão, profissionais como cantores, atores e locutores normalmente envelhecem com a voz firme. Mas o caso de Cauby é surpreendente: sua voz continua com o mesmo belíssimo timbre e extensão privilegiada. Assisti a uma apresentação sua no programa Som Brasil em que ele cantava, ao vivo, a música Bastidores, de Chico Buarque. Foi emocionante. Para dizer a verdade, a apresentação mais linda do programa. E ali estava o talvez maior intérprete da música brasileira, aos 80 anos, em todo o seu esplendor. Cauby Peixoto e Bibi Ferreira são, para mim, dois fenômenos do showbizz mundial e continuam produzindo como se tivessem ainda 20 anos. Mas Bibi é outra história e merece um post só para ela.

Cauby acaba de gravar mais um disco, homenageando (claro!) Sinatra. Ainda não tive a oportunidade de ouvi-lo, mas amigos me disseram que está muito bonito. Tenho certeza de que está, sim! Tanto talento e profissionalismo só poderiam produzir um belo disco. Aliás, tanto talento e profissionalismo só poderiam produzir um artista como Cauby Peixoto.

 

quinta 10 fevereiro 2011 22:00


A Pequena Mais Que Notável

 

Carmen Miranda

Como primeiro post de meu blog, queria um artigo que representasse o meu trabalho como cantora e toda uma vida dedicada à música popular desde a infância. Concluí então de que a síntese disso tudo seria Carmen Miranda. Quem melhor do que ela para representar a cantora popular brasileira?  Ela, que praticamente criou o estilo abrasileirado de cantar, com todo o seu swing? Ela, a mãe de todas nós, cantoras? Por coincidência, Carmen faria 102 anos no próximo dia nove de fevereiro e eu não poderia deixar passar essa data em branco. Nunca esqueci o dia em que Carmen nasceu, porque outra figura feminina muito importante para mim, minha avó materna, também fazia aniversário nessa mesma data. Ambas eram inteligentes, versáteis e à frente de seu tempo. E ambas deixaram muita saudade.

Carmen nasceu Maria do Carmo Miranda da Cunha. Seu apelido, Carmen, foi inspirado na ópera homônima de Bizet - que ela adorava. Tal qual a cigana protagonista, Carmen Miranda seduziu com sua irreverência e sensualidade, namorou muito e teve a sua tragédia pessoal, tornando-se dependente de remédios, fisicamente esgotada pelo excesso de trabalho e sofrendo com um marido por vezes, segundo historiadores, violento. Morreu prematuramente aos 46 anos.

A carreira de Carmen nasceu junto com o rádio comercial e foi por ele beneficiada: a partir do início dos anos 30, o rádio começou a se profissionalizar cada vez mais e tornou-se um meio poderoso de divulgação do trabalho de artistas. Mas Carmen não era uma artista de rádio apenas. Ela era palco e tinha uma inteligência extraordinária. Mesmo no começo do século XX, já conseguia entender a importância da linguagem visual para um cantor, desenhando e costurando suas roupas coloridas e, como tinha pouco mais de um metro e meio, criou os famosos sapatos plataforma altíssimos e turbantes enormes, que ela mesmo confeccionava, para deixar-lhe mais vistosa em cena, montando uma personagem em que esses acessórios pudessem se encaixar com harmonia. Aos balangandãs, acrescentou uma dança diferente em que mexia os quadris e os braços. Carmen, sem querer, inventou a popstar com seus figurinos extravagantes, dança e sua incrível presença cênica. Guardando as devidas proporções, seria a Madona dos anos 30 e 40: cantava, dançava, era irreverente, teve grande projeção internacional e se dedicou ao cinema. Mas a carreira cinematográfica de Carmen foi muito mais interessante e prolífera do que a de Madona. E, cá entre nós, sou muito mais a Carmen.

Também era determinada e compreendeu que, sozinha, não poderia realizar nos EUA o mesmo tipo de trabalho que fazia em terras brasileiras, exigindo que seu grupo, o Bando da Lua, viajasse com ela. Carmen temia que os músicos americanos não conseguissem tocar com a mesma cadência dos brasileiros. Diante da resistência do contratante norte-americano, conseguiu que o governo de Getúlio Vargas pagasse uma parte das passagens. O restante, ela mesma pagou do próprio bolso.

De certa forma, a personagem criada por Carmen eclipsou a cantora: ela é muito mais lembrada pela exuberância de suas roupas e de sua dança do que por seu inacreditável talento vocal. Seu fraseado era ágil, rítmico, sinuoso e repleto de notas curtas que em muito lembrava as melodias dos chorinhos. O domínio que possuía sobre o a divisão rítmica era espantoso e, até hoje, poucas vezes ouvi uma cantora com essa musicalidade, brasileira ou não. Carmen nasceu em uma família pobre e foi criada na Lapa, centro do Rio de Janeiro, junto com toda a malandragem carioca - a malandragem romântica, bem diferente daquela de hoje em dia, má, violenta... Deve ter visto e ouvido muito e afirmava que havia aprendido a requebrar com as negras dos morros. Também deve tê-los ouvido cantar e tocar à exaustão e, quem sabe?, presenciado algumas rodas de choro. Teria Ademilde Fonseca se inspirado em Carmen Miranda? Bebido naquela fonte? Estive com Ademilde umas duas vezes, mas nunca me senti à vontade para perguntar-lhe. Não por ela ser distante, fria. Muito pelo contrário, é gentil e atenciosa, mas não tive a oportunidade. Um dia, talvez...

Surpreendentemente, Carmen dizia que desafinava. Nunca compreendi a razão pela qual afirmava isso, pois, em nenhum dos muitos registros em que a ouvi cantar, percebi uma nota desafinada sequer. Cantores podem ser levados a desafinar por vários motivos: cansaço físico, má colocação da voz, respiração inadequada, nervosismo (que altera a respiração), quando não se ouvem... Talvez Carmen eventualmente desafinasse uma nota ou outra por dançar demais, ficando sem fôlego e prejudicando a sua respiração. Mas ela era muito talentosa e essa é a diferença entre bons e maus cantores: o bom sente quando, por algum motivo, desafina. O seu apurado ouvido acusa imediatamente. Já o mau cantor...

Dizem que Carmen sempre representava o mesmo tipo de personagem no cinema e nunca teve um bom papel. Bobagem. A maior e melhor personagem interpretada por Maria do Carmo foi Carmen Miranda, com sua alegria, musicalidade, badulaques e trejeitos, em sua interpretação da nossa rica brasilidade. Em meu nome e em nome de todas as cantoras brasileiras, gostaria de dizer muito obrigada, Carmen. Do fundo de nossos corações musicais!

 Visite o excelente site oficial: www.carmenmiranda.com.br

 

quarta 26 janeiro 2011 21:55



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